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Delivery e take-away: pizza, sushi, ramen e o custo da Uber Eats e da Glovo

Pessoa a retirar comida de uma bolsa térmica numa sala com pizza, sushi, comida quente e telemóvel numa mesa.

O take-away, no fim de contas, tem sempre ar de estufado. À partida, isto levar-nos-ia a supor que os guisados seriam os reis dos pedidos - sei lá, umas ervilhas com chouriço. Só que não é isso que os sinais indicam: o que as pessoas mais mandam vir é pizza, hambúrguer e lasanha.

Há qualquer coisa de insano nisto. Fechar uma pizza a fumegar dentro de uma caixa é quase como mergulhar pão num jacuzzi. Ainda assim, a pizza continua no topo do delivery. A “pizza de jacuzzi” passou a ser aceitável - é o retrato do tempo em que vivemos. O que se procura, afinal, é estufado de pizza, estufado de hambúrguer, estufado de lasanha.

O que realmente funciona no take-away

Apesar de tudo, há exceções que aguentam bem a viagem - e que eu aceito cá em casa.

Sushi: prático, mas com demasiado plástico

Uma dessas exceções é o sushi. Salmão frio, arroz morno, molho de soja e pauzinhos: em teoria, está tudo no sítio. O senão é o rasto de lixo - plásticos e mais plásticos, além de toda a parafernália.

Ramen (Ramen Joe, Lisboa) e a importância do embalamento

Outra opção que costuma resultar é o ramen. O do Ramen Joe, em Lisboa, por exemplo, funciona precisamente por causa da forma como é embalado. Nas melhores casas, os noodles seguem separados do caldo, o que evita que fiquem a cozer demais durante o transporte. Ainda assim, deixo uma sugestão: aqueçam sempre o caldo de novo, até ferver - ramen apenas morno torna-se enjoativo.

Salteados chineses: comida que “viaja” sem se estragar

Os salteados de massa frita chinesa são outro clássico de entrega: gambas com massa frita, por exemplo. E a comida chinesa, no geral, costuma ter um certo toque de processado que aguenta bem o caminho; parece quase indestrutível.

O frango de churrasco e a tradição das filas

Há ainda um tipo de comida que chega bem a casa - o problema é encontrá-la com qualidade: bom frango de churrasco. O frango é tão bom que continua bom mesmo depois de fechado numa caixa de alumínio. Só que os melhores que conheço nem sequer aparecem no delivery, porque não precisam: em Portugal há sempre quem goste de fazer fila pelo frango de churrasco. É um hábito antigo. Quarenta minutos de espera, sem fazer nada, na rua. Um luxo.

A economia do delivery: comissões, margens e quem fica a perder

Nem toda a gente tem a sorte das churrasqueiras. Houve restaurantes que, durante a pandemia, fizeram do take-away um balão de oxigénio - e depois acabaram por morrer asfixiados. As comissões pedidas por aplicações como a Uber Eats e a Glovo são, muitas vezes, acima de 20% do preço e esmagam as receitas de quem cozinha. Quem se vai aguentando é quem vende produtos baratos de produzir, como pizzas e massas, como me explicou Miguel Azevedo Peres, dono do restaurante Pigmeu, que abandonou o delivery no pós-pandemia. “Se não for para ir com uma coisa assim, nem vale a pena, é um mercado supercompetitivo.”

A parte maior do lucro fica nas aplicações, muitas vezes à custa dos restaurantes - mas sobretudo à custa de quem faz as entregas. Os estafetas do delivery são carne para canhão neste modelo. Enfrentam o trânsito das grandes cidades, num ambiente hostil, para receber pouco. “Não têm garantias, embora trabalhem todos os dias para a mesma empresa. Faça chuva ou faça sol, estão lá, na sua bicicleta ou mota”, lembra Miguel Azevedo Peres.

É também por isso que os preços conseguem manter-se relativamente baixos. Se assim não fosse, é possível que o negócio nem existisse e que a febre das entregas de comida em casa tivesse sido só uma moda passageira.

A normalização das entregas e o que se perde pelo caminho

O facto é que o mundo se rendeu a mandar vir comida para casa. Desde a pandemia, a utilização de aplicações como a Uber Eats e a Glovo tem aumentado. Um estudo de 2024, citado pelo “The New York Times”, aponta que, nos EUA, três em cada quatro pedidos feitos em restaurantes estado-unidenses são para fora. Para Portugal não encontrei números credíveis, mas é fácil concluir que o fenómeno também se passa aqui. E muito. E eu não gosto disso. Por várias razões, a começar por esta: sair de casa e ir conviver a um restaurante faz bem.

Em suma, não defendo que se acabe com o delivery. Mas alguma coisa devia mudar - para poluir menos, para equilibrar melhor a repartição de dividendos e para se comer melhor.

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