A maioria das pessoas que opta por alimentos sem açúcar está a pensar em reduzir calorias ou a evitar o açúcar. Poucos imaginariam que o próprio intestino pode começar a fabricar um dos mesmos adoçantes.
Um novo estudo mostrou que, após qualquer refeição, a parede intestinal converte discretamente parte do açúcar ingerido em sorbitol.
Este poliól natural (um álcool de açúcar) é usado frequentemente como substituto do açúcar na alimentação. Isso significa que o sorbitol pode ter duas origens ao mesmo tempo: uma vinda da dieta e outra produzida dentro do organismo.
Para algumas pessoas, a soma do sorbitol consumido com o que é formado pela parede do intestino pode tornar-se problemática, dependendo das bactérias que vivem no trato intestinal.
Porque é que o sorbitol passou a ser analisado de perto
O trabalho foi desenvolvido no laboratório de Gary J. Patti, Michael and Tana Powell Professor of Chemistry na Washington University in St. Louis (WashU).
Há vários anos que a equipa tem vindo a mapear o que a frutose faz no organismo, incluindo a sua capacidade de alimentar o crescimento de tumores e de favorecer a acumulação de gordura no tecido hepático.
Ao olhar para essas vias, o grupo de Patti reparou que o sorbitol está a apenas uma reacção química da frutose. O corpo possui uma enzima capaz de converter uma substância na outra.
Assim, um adoçante apresentado como uma alternativa mais “suave” poderia, em teoria, provocar danos semelhantes aos da frutose - desde que as condições no intestino permitissem a sua passagem.
Testar o sorbitol em peixe-zebra
Para testar a hipótese, a equipa recorreu ao peixe-zebra. A química do fígado destes peixes é suficientemente parecida com a humana para servir como ferramenta fiável na análise de como o organismo lida com o açúcar. São animais pequenos, mas a biologia relevante é comparável.
Os investigadores administraram antibióticos para eliminar o microbioma intestinal em peixes-zebra adultos. Depois, mantiveram-nos numa dieta normal e observaram o que acontecia.
Ao fim de algumas semanas, começou a acumular-se gordura no fígado dos peixes sem bactérias - sinais precoces de fígado gordo - apesar de estarem a ingerir uma alimentação que, à partida, não deveria causar problemas.
O intestino fabrica sorbitol
Ao seguir o rasto químico, a equipa encontrou algo inesperado.
No interior do próprio intestino, o açúcar dos alimentos estava a ser convertido em sorbitol - não por bactérias nem por aditivos alimentares, mas pela própria parede intestinal. Depois das refeições, os níveis de sorbitol aumentavam.
Estudos anteriores já tinham ligado esta mesma conversão a pessoas com diabetes, em que a glicemia pode atingir valores suficientemente elevados para impulsionar a reacção. Até agora, assumia-se que, em indivíduos saudáveis, o intestino praticamente não activava este processo.
No entanto, também estava a acontecer em animais saudáveis. Mesmo com uma dieta comum, a produção de sorbitol já entrava em acção no intestino após cada refeição.
As bactérias consomem o sorbitol
A peça seguinte veio dos peixes que mantinham as suas bactérias intestinais. Com a mesma dieta e as mesmas células intestinais, não havia gordura no fígado. As bactérias estavam a consumir o sorbitol antes de este conseguir chegar ao fígado.
Um género bacteriano assumiu a maior parte desse papel: Aeromonas. Estas bactérias degradam o sorbitol em subprodutos inofensivos. Quando a equipa voltou a introduzir Aeromonas em peixes tratados com antibióticos, os sinais de lesão hepática diminuíram.
“Contudo, se não tiver as bactérias certas, é aí que se torna problemático. Porque, nessas condições, o sorbitol não é degradado e, como resultado, passa para o fígado”, disse Patti.
A curta viagem do sorbitol até ao fígado
Quando o sorbitol consegue atravessar o intestino sem ser eliminado pelas bactérias, segue para o fígado. Já no interior das células hepáticas, uma enzima transforma-o num composto semelhante à frutose.
Essa molécula parece desencadear uma cascata de reacções, acelerando a forma como o fígado processa o açúcar e promovendo a acumulação de gordura.
Dietas ricas em frutose produzem o mesmo padrão, algo bem documentado em estudos anteriores sobre o metabolismo hepático.
Para lá do organismo diabético
Até este trabalho, grande parte do que se sabia sobre a produção de sorbitol no organismo vinha de investigação centrada na diabetes.
A reacção precisa de níveis elevados de glicose para arrancar, motivo pelo qual era tratada sobretudo como uma complicação associada à doença.
Mas os intestinos do peixe-zebra atingiam esses níveis de glicose de forma rotineira após uma refeição. Animais saudáveis, com intestinos saudáveis, estavam a produzir sorbitol de forma regular. A via metabólica não está à espera de uma doença para funcionar.
O que esta descoberta torna possível
A novidade não é apenas a possibilidade de o sorbitol chegar ao fígado. É o facto de o próprio corpo produzir este açúcar depois de cada refeição. As bactérias intestinais são a barreira que separa o sorbitol do fígado.
O sorbitol é apenas um entre vários álcoois de açúcar vendidos como substitutos - xilitol, eritritol e manitol pertencem à mesma família.
Estas conclusões sugerem que o rótulo “sem açúcar” pode exagerar a segurança destes produtos em pessoas cujo conjunto de bactérias intestinais tenha sido alterado por antibióticos, doença ou alimentação.
As bactérias como escudo do fígado
Revisões recentes estimam que cerca de 30% dos adultos em todo o mundo tem alguma forma de doença hepática gordurosa, um valor que tem aumentado de forma consistente ao longo de décadas.
Se parte dessa prevalência estiver relacionada com a forma como o microbioma lida com o sorbitol, as questões seguintes passam a ser: que estirpes bacterianas oferecem protecção e de que modo a dieta e o uso de antibióticos mudam esse equilíbrio.
Para Patti, a implicação ficou desconfortavelmente próxima. Ao verificar recentemente o rótulo da sua barra proteica preferida, descobriu que vinha carregada de sorbitol.
“Nós vemos claramente que o sorbitol administrado a animais acaba em tecidos por todo o corpo”, disse Patti.
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